terça-feira, 29 de maio de 2012

A marcha das vadias - por que eu protesto.


A história da marcha das vadias tá rendendo. Rendendo piadas, machismo, mas também tá rendendo reflexão. E pessoas perguntam o que faz as mulheres irem às ruas se intitulando vadias para protestar.
Eu me intitulo vadia e protesto:
  • Porque ainda tem milhões de meninas sendo abusadas na infância em razão da mente podre de adultos que não entendem o que é carinho;
  • Porque ainda tem mulheres que não podem se comportar como bem entendem, com medo de serem rotuladas e violentadas;
  • Porque quando alguém me xinga no trânsito, vem acompanhado de um “só pode ser mulher”;
  • Porque não podemos amamentar nossos filhos em público até quando bem quisermos, pois isso fere os brios dos mal resolvidos;
  • Porque eu não posso ser gorda, magra, alta, baixa, bonita, feia, maquiada, cara lavada, cabelo curto, comprido, liso, cacheado, black, tatuada, com piercing, que sempre vai vir alguém dizer que isso não é coisa de mulher;
  • Porque quando alguém xinga uma mulher, sempre envolve o aspecto sexual;
  • Porque as mulheres que exercem sua liberdade sexual ainda são discriminadas;
  • Porque ainda tem homem que se acha no direito de gritar com uma mulher só porque ela é mulher;
  • Porque ainda há uma infinidade de mulheres que apanha de seus companheiros e acha isso normal.

Foto: Tomas Edson Silveira
Mas, além de tudo, esse ano, eu protestei:
  • Porque há mulheres que no ato de parir sofrem todo tipo de violência física e verbal e são convencidas de que isso é normal;
  • Porque mulheres são abandonadas em hospitais e maternidades sozinhas durante o trabalho de parto, parto e pós parto, em evidente desrespeito à lei do acompanhante;
  • Porque eu sou discriminada por ter lutado por um parto normal;
  • Porque as pessoas torcem o nariz quando eu falo em parir com prazer;
  • Porque as mulheres ainda são impedidas de protagonizar seus partos;
  • Porque ainda são realizadas diversas intervenções desnecessárias e prejudiciais durante o trabalho de parto sem sequer consultar a mulher;
  • Porque ainda fazem episiotomias desnecessárias que deixam sequelas para sempre;
  • Porque os recém nascidos ainda são separados das mães precocemente e têm seus cordões umbilicais cortados quase que instantaneamente após o parto;
  • Porque ainda dão banhos dignos de filmes de terror nas maternidades;
  • Porque dão mamadeira no berçário, ao invés de incentivar a amamentação;

E, ainda, porque eu tenho a esperança de que um dia nossos protestos surtirão efeito, e mesmo que uma única mulher veja meu protesto e repense,  procure informação, se rebele e vire protagonista da própria vida, então não terá sido em vão.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A importância de uma doula pós-parto


Os grupos de apoio têm um grande foco na preparação para a gravidez e o parto. No entanto, passado o parto, muitas vezes as mães entram em desespero, porque não se prepararam suficientemente para estar com um bebê recém-nascido.
Antigamente, as recém-mães tinham o suporte das mulheres de sua família e da família de seu marido. No entanto, atualmente, tanto pela inserção das mulheres no mercado de trabalho quanto pelo fato de que as famílias não moram mais tão próximas, não é mais possível essa ajuda.
Para ajudar a mãe nesse momento tão delicado e algumas vezes assustador, existe a figura da doula pós-parto, pouco conhecida mas de extrema importância para que o processo de maternagem e de primeiro contato da família com o bebê torne-se prazeroso, dando à nova mãe e à família confiança e conhecimentos para lidar com o novo ser que chega.
A doula pós-parto é uma profissional que estabelece um vínculo com a família inteira, ajudando os pais e familiares a cuidarem da nova mãe e do bebê, promovendo um desenvolvimento integral, saudável e feliz para todos.
Ela auxilia e ensina a mãe e outros cuidadores com os primeiros cuidados com o bebê, auxiliando na higiene, vestimenta e conforto do bebê. Além disso, pode, se for necessário, auxiliar preparando uma refeição rápida, ajudar com as roupas sujas do bebê e com uma ida rápida ao mercado.
Além disso, assegura que a mãe esteja bem alimentada, hidratada e descansndo o suficiente para que possa dispensar os cuidados necessários ao bebê.
Muitas vezes, confunde-se doula pós-parto e babá. No entanto, elas não exercem a mesma função. A doula pós-parto, ao contrário da babá, não tem como função cuidar do bebê no lugar da mãe. Ela, sim, ensina a mãe a cuidar do bebê, mas também foca no restante da família, prestando esse auxílio a pais, irmãos e cuidadores.
Ela pode, na medida do possível, verificar se a mãe está desenvolvendo um quadro de blues ou de depressão pós-parto, sugerindo acompanhamento médico. Uma doula pós-parto, por não ser médico, não está autorizada a prescrever medicação ou diagnosticar doenças. Sua tarefa se limita a verificar as condições da mãe e bebê e, caso verifique alguma alteração importante, oriente a família e a cliente a procurar auxílio.
De qualquer forma, o importante trabalho da doula pós-parto é importantíssimo, pois oferece suporte à família para que esta adquira autoconfiança para cuidar do novo membro, evitando stress desnecessário e o desespero que muitas vezes acomete a família quando se vê sozinha com um bebê recém-nascido para cuidar.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Attachment parenting ou criação com apego – nossas escolhas.


Desde que engravidei, tanto eu quanto o Tomas passamos por mudanças significativas em nossos comportamentos.
Eu, especialmente, vi ruírem conceitos que até então eu tinha. Achava que bebê era manhoso e tinha que se adaptar ao mundo, que afinal ele devia mesmo era ser independente. Tinha medo de uma criança manhosa e birrenta.
E daí, num 19 de outubro, ele chegou, e tudo mudou. Já no hospital, ele dormiu comigo. Deitei ele na cama comigo e fiquei. Saiu de lá no sling. E eu estava decidida, desde então, a amamentar exclusivamente até os 6 meses e a não desgrudar dele.
Nos primeiros dias em casa, ficamos com medo de machucá-lo e colocamos o bebê para dormir no berço. Ele acordava de hora em hora para mamar e eu amanhecia esgotada. Um dia, viajamos para a praia e lá não tinha berço, o Rafa dormiu na nossa cama. Acordou 2 vezes pra mamar. Desde então dorme conosco.
Vejo que criá-lo por perto, com carinho, atendendo às necessidades dele, torna-o um ser feliz, um indivíduo indepentente, esperto, ativo. Ele não chora por manha, chora quando tem alguma necessidade.
E mama. Tem 7 meses e se alimenta basicamente de leite materno. Quando voltei a trabalhar, ele veio pro escritório comigo, porque tinha que mamar. Agora tá começando a se alimentar, alguns dias fica um tempo com o pai, mas eu ainda amamento, e vamos assim enquanto ele quiser mamar.
Não anda em carrinho, anda de sling grudadinho em nós, e fica feliz com isso. Vemos que ele cresce, se desenvolve bem. É notadamente seguro, gosta de pessoas, não estranha ninguém.
E adora beijo, carinho, abraço.
Vejo crianças por aí meio apáticas, que não gostam de gente, têm medo de tudo e de todos, são inseguras.
Vejo adultos por aí  meio apáticos, que não gostam de gente, têm medo de tudo e de todos, são inseguros. Geralmente são eles que criam as crianças acima.
Eu e o Tomas, aqui do nosso cantinho, criamos o nosso filho com amor e apego. Ele tem amamentação em livre demanda, cama compartilhada, sling e carinho. E não demanda mais do que precisa. E cresce de uma forma linda e tranquila.

Isso, pra nós, é o que importa.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Testando teu médico para ver se ele é cesarista

Hoje estava eu lendo e-mails a respeito de médicos "cesaristas" (aqueles que preferem cesáreas e, quando a mulher não pede ou não há indicação real, na hora "inventam" uma indicação para a cirurgia - sim, minha gente, a cesárea é uma cirurgia de grande porte, e traz com ela todos os riscos como tal) e lembrei de um teste que vi uma vez num site, para ver se o médico é ou não.
Daí também lembrei da história de umas várias amigas que pariram nos últimos 3 anos, e TODAS acabaram em cesárea, com o detalhe de que algumas delas achavam lindo parto normal, diziam que "vai nascer do jeito que tiver que nascer" e acabaram com indicações de cesárea.
O teste foi tirado do site Amigas do Parto e é muito interessante:


Essa é uma lista bem humorada de perguntas a se fazer ao seu obstetra. Na verdade é um teste para verificar que tipo de médico ele é: do mais intervencionista ao mais liberal. Apesar do tom informal, as "respostas certas" foram inspiradas nas evidências científicas e nas recomendações da Organização Mundial da Saúde.
1) Qual a sua postura em relação à "cesárea x parto normal"? 
a) O parto normal é o melhor, mas só dá para saber na hora.
b) Hoje em dia não faz sentido ter bebê por parto normal, com as técnicas de cirurgia tão avançadas e seguras. A recuperação é rápida e graças aos novos antibióticos, antinflamatórios, antitérmicos e analgésicos, você pode ter uma vida quase normal em menos de 2 meses.
c) O parto normal é melhor, mas na sua idade (ou com o seu peso, ou nessa época do ano, ou para uma pessoa sensível como você) a cesárea é mais garantida.
d) O parto normal é melhor e pelo menos 90% das mulheres podem dar à luz naturalmente. Você também tem tudo para ter um parto normal e nós vamos nos preparar para isso!

2) Quais intervenções no parto você considera essenciais? 

a) O que eu uso nos partos é o soro com ocitocina (hormônio) para acelerar as contrações, episiotomia (corte no períneo) e rompimento da bolsa aos 5 cm de dilatação. Mas às vezes tenho outras idéias durante o parto. Depende do dia e dos meus compromissos.
b) Eu uso as intervenções apenas em raros casos, até porque a maioria delas podem ter efeitos colaterais indesejáveis. A natureza pensou em tudo, para a grande maioria das mulheres.
c) Só a anestesia, porque acho que a mulher não deve sentir dor. O resto varia de mulher para mulher.
d) Só a episiotomia, porque o parto pode destruir a vagina da mulher e provocar incontinência urinária.

3) Em que posição posso dar à luz? Posso ter um parto de cócoras? 
a) Ra ra ra ra.... Parto de cócoras? Você não é índia, é? A mulher de hoje não tem musculatura para ficar de cócoras. Você quer ser partida ao meio, minha filha?
b) Semi-reclinada, pois no centro obstétrico da maternidade onde atendo, tem uma mesa de parto que permite que a paciente eleve um pouco as costas.
c) Da forma que você se sentir mais confortável, podendo ser de cócoras, de quatro, de lado ou de outro jeito que você inventar. A única posição que eu procuro não incentivar é deitada, porque o bebê pode ter o suprimento de oxigênio comprometido.
d) Como assim? Existe outra posição para dar à luz que não seja deitada?

4) Qual será sua postura caso eu recuse alguns procedimentos que você esteja recomendando?
a) O parto é seu. Você decide o que é melhor. Se eu indicar um procedimento, vou te explicar porque, vantagens e desvantagens, mas quem tem que resolver é você.
b) Eu não recomendo procedimentos. Eu faço. Na hora do parto você não tem condições de discutir o que é bom para você. Aliás, desde o início da gravidez a mulher tem o comportamento alterado, bem como a capacidade de discernimento.
c) Eu terei que abandonar o atendimento e chamar um plantonista, pois não quero me responsabilizar pelas desgraças que podem acontecer ao seu bebê.
d) Você não tem o direito de recusar um procedimento que está sendo prescrito para o bem do seu bebê.

5) Até quanto tempo você espera na gestação, antes de indicar procedimentos por "passar da data"?
a) Eu espero até 40 semanas. Depois disso faço a cesárea. Nem tento a indução, porque é tempo perdido. Ou você prefere arriscar a vida do seu filho e viver com esse peso pro resto dos seus dias?
b) A gestação normal vai de 38 a 42 semanas. O que eu proponho é um cuidado mais intenso depois que passa de 41 semanas. Mas a princípio, enquanto o bebê e a placenta estiverem bem, eu não faço nada. Passadas 42 semanas, podemos começar a pensar em indução do parto.
c) Eu espero até 40 semanas. Depois disso interno para induzir com soro.
d) Eu espero até 41 semanas e depois interno para induzir com citotec.

6) Você tem o hábito de pedir permissão e informar tudo o que você acha necessário fazer durante a gestação e o parto? 

a) Como assim, pedir permissão? Eu estudei 10 anos, trabalho há 15 anos com partos e sei o que estou fazendo. Se for pedir permissão para fazer tudo, vou passar o dia nessa lenga-lenga com minhas pacientes.
b) Só peço permissão quando acho que o procedimento vai doer.
c) Não faço nem um exame vaginal sem pedir permissão, pois o corpo é seu, o parto é seu. Meu dever é fazer o melhor, desde que você me permita e entenda o que está acontecendo.
d) Depende do dia, pois às vezes depois de 2 plantões seguidos, eu fico meio impaciente.

7) Qual é a sua taxa de cesáreas?

a) Não sei, não tenho contado ultimamente... Se é alto? Não considero alto, porque hoje em dia as mulheres só querem cesárea. A culpa não é minha. Elas já chegam com uma idéia pré-concebida.
b) Minha taxa de cesárea é baixa, cerca de 40-45%...
c) A taxa é de 20%.. De partos normais..
d) Minha taxa de cesárea está perto de 25%, o que ainda considero alta, mas estou tomando algumas providências para tentar baixar para os 15% recomendados pela Organização Mundial da Saúde

8) Posso levar meu marido e uma acompanhante (doul a) para o meu parto?
a) Por mim você pode levar qualquer pessoa que faça você se sentir segura e tranqüila.
b) Porque? Você vai dar uma festinha no centro obstétrico? Quer ver seu marido desmaiando? Eu acho que um acompanhante já é muito.
c) Pode levar só o marido, mas só depois que ele fizer a preparação comigo, porque eu quero um aliado, não um inimigo me vigiando.
d) Não, eu acho que acompanhantes atrapalham, perturbam o ambiente, fazem muita pergunta, deixam a mulher insegura, ficam questionando o médico. Eu não atendo a família, eu atendo a gestante!

9) Você acha possível um parto normal depois de uma cesárea? 
a) Você está louca? Quem andou falando uma bobagem dessas para você? Deixa disso, minha filha, isso é coisa de natureba inconseqüente.
b) É possível, mas tem que usar fórceps para não ter um período expulsivo prolongado.
c) É possível se o trabalho de parto não passar de 4 horas.
d) É possível e é uma ótima opção, com grandes chances de dar certo.

10) Você acha que tendo uma gestação de baixo risco posso ter meu bebê em casa? 
a) Sim, o local do parto deve ser escolhido por você e seu marido. Se essa f or sua opção, devemos tomar algumas precauções, como ter um hospital relativamente perto para o caso de precisarmos de remoção. Mas geralmente não há necessidade.
b) Sim, mas eu não atendo partos domiciliares. Posso tentar te indicar um médico que faça.
c) Você enlouqueceu? Quer matar seu bebê? Quer se matar? Já pensou como é agradável sangrar até a morte com sua família te olhando sem ter o que fazer?
d) Sim, mas é muito arriscado. Muito mesmo. Você está com idéias muito românticas sobre o parto. Deveria fincar os pés no chão.

11) Devo fazer um curso de preparação para o parto? 

a) É bom, não porque você não sabe o que é certo, mas o curso vai te dar dicas preciosas, vai te dar boas sugestões para um parto agradável, vai te dar dicas de amamentação. No mais, você vai entrar em contato com outras gestantes, o que pode ser uma experiência bastante enriquecedora.
b) Bobagem. Na hora eu te digo o que é certo ou errado. Eu estudei 10 anos, pratiquei mais 15 e te garanto que sei fazer um parto. É só você ficar deitada quietinha que tudo vai dar certo.
c) Faça apenas o curso do hospital, para saber onde é a entrada, como são as rotinas do hospital, como se comportar e o que esperar.
d) Tanto faz. Você também pode ler essas revistas para mãezinhas que tem todas as dicas que você precisa de enxoval, decoração, exames médicos e tal.

12) Quantos exames de ultrassom eu devo fazer ao longo da gestação?
a) O ideal é fazer em todas as consultas e por isso eu já tenho um aparelho aqui no consultório. A gente já vai vendo a carinha do bebê, como ele se mexe, todas as partes do corpo e tudo o mais.
b) Você deve fazer pelo menos 4 para ver se o crescimento do bebê está bom.
c) Eu recomendo fazer o menor número possível de exames, pois ainda não foi totalmente provado que o ultrassom é inóquo. Algumas pesquisas apontam para uma posssível alteraçao no cérebro em bebês que passam por muitos exames na gestação. Só vou pedir esses exames se tivermos que confirmar algum diagnóstico.
d) O máximo que o seu plano de saúde permitir antes de vir aqui me atazanar a paciência.


Resultados - some os pontos:
1- a(2) / b(1) / c(2) / d(3)
2- a(1) / b(3) / c(2) / d(2)
3- a(1) / b(2) / c(3) / d(1)
4- a(3) / b(1) / c(2) / d(1)
5- a(1) / b(4) / c(2) / d(3)
6- a(1) / b(2) / c(3) / d(1)
7- a(1) / b(2) / c(1) / d(3)
8- a(3) / b(1) / c(2) / d(1)
9- a(1) / b(2) / c(2) / d(3)
10- a(3) / b(2) / c(1) / d(2)
11- a(3) / b(1) / c(2) / d(1)
12- a(1) / b(2) / c(3) / d(1)

Se seu médico fez entre 12 e 20 pontos: Fuja, saia correndo, ligue dizendo que você não está grávida, era um engano, foi apenas má digestão. Você tem certeza que ele tem um diploma válido em território nacional? Ter um parto com esse médico e sair ilesa é tão garantido quanto acertar na Megasena, sem ter comprado um bilhete.

Se seu médico fez entre 21 e 30 pontos:
 É melhor você trocar de médico e procurar alguém mais antenado com as novas tendências em atendimento obstétrico. Seu médico pode até ser bem intencionado, mas definitivamente é mal informado. Pode ser que dê um bom ginecologista, mas como parteiro deixa muito a desejar!

Se seu médico fez entre 31 e 37 pontos:
 O cara é fera, conhece e aplica as recomendações da Organização da Saúde e as evidências científicas. Aparentemente evita procedimentos médicos que podem atrapalhar o trabalho de parto. É respeitoso e honesto. Parece um cara do bem, um bom partido. Me arruma o telefone dele?


segunda-feira, 9 de abril de 2012

6 meses e amamentação

Essa semana o Rafa provou a primeira coisa que não era meu leite nem homeopatia: lambeu uma banana e um butiá. Meu guri tá grandinho, daqui a pouco começamos a introdução de alimentos.
E, entre trabalho, Rafa, aula e conversas, eu vi que não consigo mais ser passiva. Preciso fazer alguma coisa pelos outros. Pelas outras. Preciso colocar pra fora o que está aqui para, quem sabe, alguém ler. Se uma única mulher ler isso e se encorajar, se uma única criança tiver um nascimento um tiquinho melhor pelo que vir aqui, se algum ser nesse universo pensar e utilizar algo do que leu aqui, eu já estou feliz, pois estou tentando fazer a minha parte.
Depois do nascimento do bebê, eu vi que não só o parto teria que ser bancado: TODAS - todas mesmo - as decisões que eu e o pai dele tomamos foram alvo de algum tipo de questionamento. Isso acontece com todas as mães, claro, e é complicado. Foi um tal de "menino mama mais, tu não vai aguentar e vai dar mamadeira", "ele é assim (assim como, meu Deus, ativo?!) porque não usa chupeta", "fralda de pano vai cozinhar o pinto dele", "tá muito grande", "tá pequenininho", "mas nem farelinho ele come?", "quando vai começar com suquinho?", "posso dar água?", que às vezes eu achava que ia gritar até não poder mais.
Mas, enfim, são quase 6 meses de amamentação exclusiva, fralda de pano, sem chupeta, um bebê feliz, alerta, esperto, tranquilo, inteligente, bem alimentado.
E assim vamos nós.
Eu, particularmente, sabia que não seria fácil a amamentação exclusiva. Não por mim, mas pelos outros. Mostrar peito na TV o tempo todo é lindo, mulher fruta e topless são o máximo, mas a mulher alimentando um filho é indecente. Eu, graças a Deus, nunca enfrentei nenhuma situação em que alguém me dissesse para não amamentar, mas muitas vezes o ato chamou atenção, até mesmo porque o Rafa é um bebê grande e aparenta ter mais do que os seus quase 6 meses.
Mas sempre tive a certeza de que, até os 6 meses, o único alimento que meu filho receberia seria meu leite. E tenho a intenção de que até 1 ano o único leite que ele receberá será o meu (sem leites artificiais ou de vaca ou outro bicho, que afinal ele é um humaninho, não um bezerrinho). Ele já andou provando frutinhas, mas nada pra alimentar, só pra provar. A alimentação a valer é só depois dos 6.
E ele tá aí, grandão! Quase 9kg de pura gostosura. O leite sustenta, alimenta. Ele não tem fome. E leite não é só comida, né? Ele ganha leitinho, colinho, amor, cheiro, essas coisas que todo mundo gosta. E é pra isso que eu quero manter a amamentação até quando ele não quiser mais.
Aos que me apoiaram pra que eu amamentasse, obrigado. Aos que tinham suas dúvidas, aí está a resposta. E, aos que tinham a certeza que eu não conseguiria, o meu maior agradecimento: vocês foram em grande parte os responsáveis por eu conseguir!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Relato do parto do Rafael

Primeiro de tudo, acho importante postar o relato do parto, para que se saiba como o nosso bebê chegou ao mundo, nos colocando de vez no mundo da maternidade/paternidade.

Desde que o parto domiciliar me foi apresentado, pelo irmão do meu obstetra, ele se tornou uma vontade muito grande para mim. Fui desenvolvendo a ideia por bastante tempo, e apresentando isso pro Tomas. No entanto, ele sempre achou que lugar de parir é em hospital.
Logo no início da gestação, decidi frequentar as reuniões do Nascer Sorrindo, e levei o Tomas comigo, sob o argumento de que “o parto vai ser em casa, queiras tu ou não. Tens a possibilidade de aceitar e participar do nascimento do teu filho, ou perder isso tudo por causa da tua teimosia e preconceito.” Ele foi e saiu de lá convencido de que era o melhor, virando inclusive um defensor ferrenho de humanização do parto e de parto domiciliar.
E assim foi a gravidez inteira: nossa casa estava preparada, estávamos só esperando o Rafael decidir, afinal, se é ele quem vai nascer, a decisão é dele.
Durante os 9 meses, li, me informei, chorei lendo relatos de parto e pensando no meu. Achava engraçadas várias descrições, inclusive pensava que algumas eram meio fantasiosas (tipo o barulho que se ouve quando estoura a bolsa), mas curtia muito isso, ficava mentalizando pro Rafa aprender como é que ele ia chegar.
Eu tinha pavor de hospital, pavor da ideia de parir lá e do que fariam com o Rafa. Todas as vezes em que meu obstetra viajou a partir do 6º mês de gestação, eu só pensava: “Rafa, quem escolhe tua hora és tu, mas escolhe uma em que o R. esteja aqui, pode ser?”
E ele foi esperando, esperando, e eu chegando já à 41ª semana de gestação. Sabia que no meu caso poderíamos ir até a 43ª semana, por conta de um ciclo menstrual longo, mas eu estava efetivamente ansiosa, queria saber como era entrar em TP. Tive algumas ameaças, mas nada efetivo. Uma contraçãozinha mais dolorida, algumas indolores, e assim íamos.
No dia 18/10, fui tomar banho, e chamei o Tomas para tomar comigo. Eu gostava disso. Ficamos no chuveiro conversando, ele fazendo massagem... Até que senti que minha pressão tinha baixado um pouco, e saí do chuveiro, fui me secar e deitar um pouco. Depois disso, me senti um pouco quente, e fui medir a temperatura: 38,3ºC. Nada de tão preocupante, mas também não era de se ignorar uma febre às vésperas da 41ª semana de gestação.
O Tomas ligou pro R., conversaram e a orientação foi de eu ir ao hospital, o R. estava lá atendendo uma paciente e já dava uma avaliada.
Eu enrolei, jantei, pensei e liguei pra ele: “Eu preciso mesmo ir pro hospital? Eu não quero ir”. Ok, ele veio até minha casa. Conversamos, e ele disse que era mais prudente irmos, até porque ele poderia me pedir exames pra ver se havia alguma infecção ou algo com o Rafael.
Eu aceitei. Antes de sair, ainda olhei pra todos e perguntei, num misto de esperança e medo: “Não preciso levar as coisas do Rafael, ?” (Tinha a esperança de que talvez fosse a hora dele e medo de que minha febre acabasse em cesárea). A Z., com toda calma, respondeu que não, que se fosse o caso alguém buscaria depois. Mentalmente, praguejei a resposta, mas ok.
Fomos nós para o hospital. Chegando lá, a calma da Z., do R. e do Tomas não me deixava pensar onde eu estava. Ele pediu os exames, explicou tudo, disse que fariam o tal do cardiotoco pra ver se havia algum problema com o Rafa, mais exames de sangue e urina, e que se desse tudo ok eu teria alta às 6 da manhã do dia seguinte.
Eu estava aliviada. Mas ainda irritada. No dia seguinte, às 13h, eu tinha marcada uma eco, pra ver se estava tudo bem (afinal, estávamos praticamente na 41ª semana). Na eco anterior, o médico veio com um papo de que o Rafa já estava com 3,200kg (com 36 semanas), que isso era muito, que ele ainda ia ganhar mais 1kg até o fim da gestação, que ele era muito grande, blablabla, e perguntou umas 4 vezes se eu tinha certeza de que queria parto normal. Controlei a irritação e respondi sim todas as vezes. Pensar em fazer outra eco e ouvir isso tudo de novo me irritava muito. Mas, enfim.
Eis que estamos nós no hospital, aquele entra e sai de gente pra fazer exame. Depois de tudo feito, tentei dormir. Às 4h da manhã, acordei com dores já conhecidas: contrações. Comecei a monitorar, e vi que elas estavam bem próximas umas das outras (de 3 em 3min, às vezes 4 em 4min) e durando de 30 a 40s. Chamei o Tomas: tá, ligamos pro R.? Ele, achando que não era nada: não, Lúcia, espera que é ansiedade. Como a coisa não passava, eu liguei. A orientação foi acompanhar e ligar caso houvesse alguma alteração.
Uma enfermeira entrou no quarto pra ver como eu estava (acho que o R. ligou pra lá). Ficou ali por meio minuto, mexendo na minha barriga, e concluiu brilhantemente que não, eu não estava em trabalho de parto. Depois, outra enfermeira, 1cm de dilatação, mas eu não estava em trabalho de parto (Resposta mental: não, não estou, tu é que estás!).
Perto das 6h, saíram os resultados dos exames, tudo ok. Ou seja, eu estava com febre, não se sabe porque, mas não havia causa aparente. E aí veio a pior parte: como não se sabia a causa, e eu possivelmente estava em trabalho de parto, não podia ter alta. Ótimo, pois não precisaria fazer a eco. Péssimo, pois eu estava dentro de um hospital.
Eu ainda tinha ioga aquele dia, precisava avisar a doula. Sabia que ela acordava supercedo pra levar o filho no colégio, e mandei uma mensagem pro celular avisando algo do tipo “vamos nos ver hoje, mas é pra conhecermos o Rafa, acho”.
Durante a manhã, o Tomas teve que sair e fiquei sozinha no quarto. A essa altura, as contrações já estavam bem fortinhas, e eu tentava fazer o que dava pra aliviar. Sentava em lugar baixo, que aliviava, ia pro vaso, que era onde doía menos. Quando a MJ chegou e entrou no quarto, alivio!!! Minha doula estava comigo. Foi só ela chegar que passei o relatório: já fui várias vezes ao banheiro, já vomitei e as contrações estão fortes, quero ir pro chuveiro. E lá fomos nós. Eu só ficava de quatro ou ajoelhada, com água caindo nas costas, e pensando: “que tri, então é assim!”
Em pouco tempo, ouvi a porta do quarto se abrir, e a porta do banheiro também. E uma voz muito conhecida nos cumprimentou: era o R.. Tá, agora eu tava mais tranquila. Ele simplesmente nos avisou que iríamos trocar de quarto (eu bem que achava o que estávamos meio pequeno, mal tinha espaço pra cama, onde é que eu ia parir?!
Quando saí do chuveiro, vesti a camisolinha e me senti uma prisioneira. Já estava com pulseira e camisola, vestida e etiquetada, pronta e cumprindo todas as regrinhas que o circo impunha.
Já estava também resignada e aceitando o fato de que eu respeitava tanto, mas tanto, mas tanto o meu filho que eu esperei até a hora em que ele decidiu estar pronto, e isso também incluiria o lugar. Se ele escolheu o hospital, eu não iria dizer o contrário. Até porque, àquela altura do campeonato, eu não conseguia me ver saindo dali pra ir pra casa. Andar de carro não era uma possibilidade.
Fomos para o outro quarto, e em pouco tempo estávamos todos lá: eu, Tomas, MJ, R.. Ops, mas faltava a parteira. A toda hora, eu pensava “cadê a Z.?”. Mas eu sabia (pois tinha conversado com ela no dia anterior) que quarta-feira ela trabalhava pela manhã, então eu estava esperando a tarde para ver se ela chegava.
No quarto maior, baixou a adrenalina, e a ocitocina foi tomando conta. Assim que cheguei no quarto, olhei pras pessoas e disse: eu preciso vomitar. R. e MJ ficaram felizes, e disseram o que eu sabia, mas não queria ficar pensando pra não me iludir: isso é sinal de que o útero estava dilatando. As contrações pioravam, ficavam próximas, a noção de tempo ia embora. Eu ia do vaso pro chuveiro e pra cama. Às vezes, rebolava um pouco em pé. Em alguns lances de lucidez, lembrava do medo/tensão/dor e tentava relaxar tanto quanto possível.
Curioso que várias coisas se passavam pela minha cabeça. Eram pensamentos do tipo “ah, então esse é o homem de vidro”, quando eu via o R. quase que alheio ao que acontecia, simplesmente esperando; ou “ah, então aqui é que eu me desespero?”, “ta, eu não perdi tampão, a bolsa não estourou, isso ta certo?”, “Tomas Edson, isso é muito tri, mas dói pra caramba!”.
Lá pelas tantas eu já tava meio que agoniada. Eu queria saber, afinal, a que pé andávamos. Talvez percebendo isso, ou por pura coincidência, o R. pediu pra fazer um exame de toque. Eu estava no vaso, esperando uma contração pra ir pra cama. Fui me limpar e vi uma coisa bem gosmenta no papel. Olhei pra MJ, que confirmou a minha suspeita. Aquele era meu tampão saindo. Peguei nele, pra ver como era, e disse algo do tipo “ah, tu é que és o tampão?!” (nota mental: sim, eu possivelmente estava surtando).
A MJ, felicíssima, disse que aquilo era tampão de 7cm, e eu pensei como é que ela sabia isso. Mas não tava a fim de perguntar. Fui pra cama. O toque foi feito, o R. dando mil informações que simplesmente não faziam o menor sentido pra mim. Lembro só de que o bebê estava alto e da frase que quase me deu um treco. Começou ele com um “a pior das hipóteses...”. Sério, nessa fração de segundo eu pensei em todas as coisas ruins que poderiam acontecer, e quis momentaneamente ficar surda, pra não ouvir. Daí ele completou: “... é de 7 pra 8cm”. Sério? Tudo isso? Gente, e eu que já tava pensando que tava longe e não ia aguentar... Mas ok, falta pouco (?) agora, vamo que vamo.
Em seguida, vieram colher minhas digitais (maldito hospital), e veio uma contração bizarra. Na hora, eu soube o que era, e quando ouvi um “ploct”, eu pensei: “cara, é verdade, faz esse barulho”. Falei pra MJ que a bolsa tinha estourado, como se isso não fosse evidente, e ela disse “É, eu ouvi”. Senti aquela coisa quente escorrendo. Em seguida, levantei pra ir pro banheiro, olhei pra cama e vi o que eu tinha certeza que era mecônio. E dei graças a Deus por serem eles a estarem ali comigo.
Continuei no revezamento cama-vaso-chuveiro. Lá pelas tantas, eu no vaso, de onde enxergava a porta do quarto, vi alguém entrando: era a Z.. Nossa, não sei se alguma vez na vida ver uma pessoa me trouxe tanto alívio. Eu não sabia disso até então, mas eu tava com medo de que ela não chegasse, de que não viesse. Logo eu, que no início da gravidez queria que o parto fosse só com o R., porque não queria mulher nenhuma presente (problemas com a mãe, vocês aparentemente foram resolvidos em 9meses).
Agora tava todo mundo ali, o Rafa podia chegar a hora que quisesse.
Nessa hora o bicho já tava pegando mesmo, e eu alternava entre vocalizar e respirar entre as contrações. A respiração me ajudava a poupar energia, eu não sabia o quanto ainda demoraria, e estava sem comer há muito tempo, por receio de vomitar de novo ou fazer cocô durante o expulsivo.
Volta e meia, a Z. vinha ouvir o coração do Rafael, ou pedia pra eu avisar quando começasse e terminasse a contração. Eu simplesmente vocalizava, até porque “começou” e “terminou” eram palavras difíceis.
Às 15h, mais um toque. Sei do horário porque perguntei depois, na hora eu até olhei pro relógio, mas metade das informações foram embora. 8 pra 9cm, Rafael descendo e na posição. Alívio. (Também depois, descobri que no primeiro toque ele ainda estava girando pra ficar na posição, e que esse segundo toque foi fundamental pra saber que realmente tudo ia dar certo e ele não travaria – nem eu).
Lá pelas tantas, eu olhei pro R. e disse que eu não aguentava mais. A resposta dele foi quase o que eu esperava, ele disse que a única solução era analgesia, e que pra isso precisava chamar o anestesista, e pra isso precisava mais um toque, que seria feito em meia hora. Inconscientemente, o que eu queria era isso mesmo: avisar pra ele que o bicho tava pegando, mas pedir pra ele me enrolar e não me anestesiar. Z., MJ e Tomas caprichavam na massagem, e eu tentava me controlar. R. pediu pra eu trocar de posição, pois na cama era mais doído mesmo. Perguntei se podia ir pro vaso (vai que nasce ali?!), ele disse que se ali eu me sentia melhor eu podia sim.
Incrivelmente, o vaso era o melhor lugar. Água quente nenhuma me trazia o alívio que sentar no vaso trazia.
Alguém estava sempre comigo, olhando. De vez em quando, a Z. ouvia o coração do Rafa, às vezes pedia pra eu avisar das contrações (depois ela disse que é porque eu ficava tão quieta que ela achava que tinha travado o trabalho de parto).
Em algum momento, o R. pediu pra fazer o outro toque. E eu pensava que eu não saía daquele vaso nem f*dendo. Mas daí eu senti uma coisa extremamente bizarra: senti uma força que me fez me mexer como se fosse uma mãe de santo baixando alguma entidade. Os ombros contraindo pra frente e pra trás, e uma sensação estranha. Ouvi a Z. dizendo que eu tava ensaiando uns puxos e pensei que se tava assim, então eu deixava fazer o toque. Mas perguntei se dava pra ser em outro lugar que não na cama, porque não via a menor possibilidade de me deitar. Disseram que podia ser de cócoras, e foram preparar o Tomas pra me apoiar. Tudo pronto, eu só precisava conseguir um intervalo entre duas contrações pra percorrer os menos de 5m que me separavam do Tomas. E, creiam, isso era difícil.
Antes do toque, a Z. pediu pra eu me apoiar na cama e fez alguma coisa. Eu só senti ela apertando o meu quadril. Não tenho a menor noção da utilidade daquilo, mas me deu um alívio tão, mas tão grande, que eu pensei em perguntar porque é que ela não fazia aquilo durante todo o trabalho de parto.
E lá fui eu me agachar. O R. pediu pra eu fazer força durante a contração, e eu fiz. Quando ele pronunciou o “10cm, bebê baixo, se esforçando dá até pra ver”, eu queria efetivamente pular de alegria. Mas, diante da impossibilidade, eu me contentava em me concentrar, agora tava no fim.
Não demorou muito para as contrações darem definitivamente lugar aos puxos. Vinha uma vontade incrível de fazer muita força. Eu me concentrava pra não me contrair, respirava e vocalizava. E ficava ali, esperando o próximo. Não tinha mais dor, só espera. Entre um puxo e outro, eu levantava, sentava, descansava. A MJ disse que a cabeça tava apontando, e me sugeriu colocar a mão pra sentir. Nossa, a melhor coisa do mundo até então.
Eu perguntei se era cabeludo, ao que o R. respondeu que sim, bem loirinho, praticamente um dinamarquês que deveria se chamar Lars. Ri um pouco, até porque eu sou morena, e o Tomas é negro, o que meio que inviabilizaria aquela descrição. Mas o bom humor do R. era muito bom.
Em seguida, senti algo que eu sabia que era o círculo de fogo. Tudo queimava, eu sentia isso, e sentia nitidamente que o Rafael tava bem perto. Consegui sentir quando ele descia mais e mais. E também consegui sentir quando tudo, absolutamente tudo, parou: não tinha mais dor, pressão, mais nada. Olhei pra frente e vi meu filho nas mãos da Z..
Naquele instante, todo o mundo parou. E, se não parou, simplesmente não tinha a menor importância, porque eu tinha parido o meu filho. No momento, local e da forma que ele escolheu. Eu simplesmente deixei e obedeci.
Infelizmente, por estarmos em um hospital, o cordão teve que ser cortado em seguida, ele sofreu tantas intervenções quanto possível (até mesmo por causa do mecônio), mas em seguida tava comigo.
Eu tive um sangramento um pouco maior do que o esperado, o que me rendeu 6h em observação, mas com o Rafa o tempo todo comigo.
Em seguida fomos os 3 pro quarto, já tinha me alimentado, pude tomar banho, descansar. Dormir era impossível pra mim, tamanha a felicidade. Achava um saco ter soro e tudo o mais, mas tava conformada.
No fim das contas, agradeci ao Rafael por ter escolhido o hospital, porque aquele sangramento, em casa, talvez fosse mais complicado de administrar, e traria pavor pra mim e pro Tomas. Aceitei, resignada, que parir no hospital não foi tão horrível quanto eu pensava, e teve até seu lado bom. Talvez essa seja eu querendo arrumar uma desculpa pra não me sentir frustrada, mas a frustração não me traria nada de bom, então prefiro encarar dessa forma.
O Rafael teve a chegada mais respeitosa que poderia ter, apesar do hospital. Em 1 semana, já tinha recuperado o peso de nascimento (3,520kg, ao contrário do que previu o maldito médico da eco), e ganho mais 200g e 2,5cm. E está bem. É um bebê até agora calmo, tranquilo, esperto. Dividi o quarto do hospital com uma guria que fora cesariada porque assim o médico decidiu, com 38 semanas e 2 dias. Ouvir as barbaridades que ela contava a respeito do parto dela fazia com que eu e o Tomas nos olhássemos, aliviados pela nossa escolha e apavorados por ela.
Tudo correu relativamente bem, na medida do que estava sob o nosso controle e dependeu das nossas decisões. E estar ali, com quem estávamos, fez com que as coisas corressem bem.
Agradeço infinitamente:
Ao R., por ter sido um homem de vidro. Eu sabia que ele estava ali pro que eu precisasse, sem que ele tivesse que intervir o tempo todo. Foi um gentleman durante todo o tempo, me fez rir, me aliviou, não me deu analgesia.
À MJ, minha amada doula, pelos 8 meses de conversas, chá, incentivo. Por estar comigo, me cuidando, me fazendo massagem, curando das dores do corpo quando eu precisei. E, acima de tudo, por ter curado as minhas feridas da alma, tendo me possibilitado me desvencilhar dos meus problemas de relacionamento com mulheres.
À Z., por ter me amparado, me dado bronca por causa do peso, me aconselhado durante a gestação, e por ter sido os braços que primeiro ampararam meu filho nesse mundo. Tenho certeza que ser amparado por alguém tão querida certamente ajudará o Rafael a ser um bom menino.
Ao Tomas, por ter estado comigo o tempo todo. Pelas palavras de incentivo durante o trabalho de parto. Por ter perguntado, com cara brava, “tu não queres mesmo aquilo, ?”, depois da minha manha pedindo analgesia. E, acima de tudo, pelo Rafael, melhor coisa de nossas vidas, nosso amado filho.
E, quase fora de contexto, ao Roger, meu amigo mais que querido, por ter um dia me dito que tinha um irmão ginecologista e obstetra que atendia partos humanizados e domiciliares, e que, mesmo diante do meu “mas isso é um absurdo!” me explicou e me colocou no caminho que culminou com o parto da forma como aconteceu.
A vocês, especialmente, todo o meu amor e agradecimento.
Às gurias da lista partonosso, meus sinceros agradecimentos por tudo o que pude aprender durante toda a gestação. Fizeram toda a diferença pra que eu tivesse segurança e tranquilidade.
A Deus, não menos importante, por simplesmente me dar a vida e me dar o Rafael.